Domingo Rural evidencia encontro estadual de agricultores experimentadores

O Programa Domingo Rural da Rádio Bonsucesso e parceiras evidenciou o 1º Encontro Estadual de Agricultoras e Agricultores Experimentadores do Semiárido Paraibano que aconteceu de 26 a 28 deste mês em Campina Grande e que contou com a presença de agricultores e agricultoras das microrregiões do estado nas quais a ASA Paraíba atua, de técnicos e lideranças da ASA e membros de fóruns microrregionais além do presidente da Emater-PB Geovanni Medeiros Costa e o secretário da agricultura familiar Alexandre Eduardo de Araújo.

O ponto principal de discussão foi sobre a qualidade da extensão trabalhada no Estado da Paraíba que, segundo dados apresentados a partir de estudos de grupos, ainda se dá de forma vertical onde o técnico extensionista apresenta sugestões tecnológicas sem levar em consideração os saberes locais e ao mesmo tempo representando contradições com relação as práticas desenvolvidas pelas entidades da ASA-PB que trabalham um processo de pesquisas participativas em sintonia com os saberes locais. “Ainda precisa melhorar muito, a extensão rural precisa, pelo o que os agricultores familiares fazem e a gente sabe que é modelo. A partir do momento em que um agricultor sai pra visitar o quintal do outro, dá suas orientações e recebe orientações, isso é que nós queremos que essa experiência seja compartilhada e isso vem acontecendo com os técnicos das organizações sociais, na grande maioria são filhos de assentados da reforma agrária, são filhos de agricultores e agricultoras ou pessoas que vão pra um instituto de pesquisas, vão se formar e se informar através da pesquisa e voltam pra fazer um trabalho em parceria com as famílias camponesas que é isso que a gente quer, que o saber popular possa ser trocado com o saber científico”, explica a representante do coletivo da ASA no Sertão da Paraíba, Maria Elza Gomes, da regional Cajazeiras, explicando que existem exemplos de técnicos que democratizam o processo de extensão participativa, mas que é ainda minoria no quadro da extensão paraibana.

Roselita Victor da Costa é componente do Pólo Sindical da Borborema e diretora do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remígio, participou do Programa Domingo Rural falando sobre a importância dos estudos e discussões dentro do evento e disse que a sociedade precisa ter mais participação no processo de pesquisa e extensão já que são temas e ações tecnológicas que tratam e praticam as práticas, vivências e experiências das famílias agricultoras. “Estivemos aqui de 26 até 28 reafirmando historicamente o papel dos agricultores numa nova perspectiva, inclusive da agroecologia como uma ciência que ao longo da história vem contribuindo para a biodiversidade e pra soberania alimentar, então os agricultores já faziam e nós temos aqui reafirmado e trouxemos também a presença do secretário executivo da agricultura familiar, do próprio Geovanni presidente da Emater pra gente colocar essas questões, a gente acha que precisa avançar. O papel e os conhecimentos dos agricultores precisam ser reconhecidos e agricultoras precisam ser valorizados e reconhecidos pela assistência técnica oficial do estado pela contribuição que eles têm dado ao longo do tempo e hoje na Paraíba, na agroecologia e na agricultura familiar”, explica a agricultora ao dialogar com os ouvintes de Domingo Rural, afirmando que o encontro teve presente todas as dinâmicas da Articulação do Semiárido via experiências de todas as microrregiões do estado.

José Wellington Barbosa da Silva é componente da Comissão Pastoral da Terra no estado e disse que as reflexões feitas durante os três dias e discutidas com as representações do governo estadual serviu para evidenciar os diferenciais dos modelos de extensão feita no Estado da Paraíba onde um aposta no uso de venenos e produtos devastadores ao meio ambiente, aos solos e a vida das pessoas e o modelo que trata com equilíbrio e respeito esse meio em que se faz a agricultura, a vida dos agricultores e agricultoras familiares que trabalham na produção e também a saúde do consumidor através dos mercados agroecológicos e nos processos de abastecimentos de Programas importantes como o PAA, Programa de Aquisição de Alimentos e PNAE, Programa Nacional de Alimentação Escolar dentre outros. “Quando a gente se refere a essa extensão da assistência técnica é evidente que tem dois modelos. O modelo que está mais na perspectiva de convivência com o semiárido respeitando a valoração da sabedoria popular dos pequenos agricultores, das comunidades, das experiências das famílias, sabedoria essa que foi adquirida do patrimônio genético da família, seus antepassados e são sabedorias que tem uma expressão muito interessante da relação do homem com a terra. O outro modelo, na verdade, vai numa outra perspectiva que é a perspectiva de que tudo no país hoje tem que ser grande, tem que ter um rosto grande, tem que ter grande expressão e assim uma agricultura entendida como negócio que seja grande e ainda não percebe um canal de comunicação desses dois modelos que aí está”, explica dizendo que a assistência técnica oficial insiste em existir para extender informações e tecnologias que venham de fora das unidades produtivas e que gera dependências, dívidas e pobrezas para agricultores familiares.

José Raniere Santos Ferreira é do Coletivo do Curimataú via CEOP de Picuí e disse que as entidades do Curimataú fazem críticas ao modelo oficial da assistência técnica que é tida pelas entidades como práticas e ações que não estão voltadas para a agricultura familiar e diz que, em contrapartida, as entidades da ASA Brasil têm implementado um modelo alternativo que é troca de experiência e o fortalecimento da experimentação e da inovação. “Recentemente nós fizemos um encontro lá em Cuité que foi mais ou menos um balanço da trajetória da agricultura familiar naquele território e as inovações no campo da agricultura familiar na agroecologia, bem como dos modelos que estão em disputa como por exemplo a mineração, a agropecuária extensiva no latifúndio ali no Curimataú Oriental e o problema das olarias com retirada da madeira para as olarias, então nós tiramos como encaminhamento fortalecermos a cada dia esse modelo de assistência técnica que nós temos, que nós entendemos que não é oficial, mas que existe no Curimataú que é o intercâmbio através do Coletivo da ASA ali no Curimataú, que é o intercâmbio de experiências e nós viemos para esse encontro estadual motivados pelo conjunto dessas experiências, dessas vivências em agroecologia. É armazenamento de forragens que veio acontecendo a partir da troca de experiências do aprendizado coletivo, é o manejo dos recursos hídricos com as formas de irrigação alternativa que vem acontecendo independentemente da assistência técnica oficializada está presente, então nós entendemos que isso tem que ser reconhecido, tem que ser fortalecido para fazermos frente aos modelos que nos ameaçam”, comenta aquele jovem agricultor e componente do movimento organizado da agricultura agroecológica da ASA Paraíba e Brasil.

Geovanni Medeiros Costa é presidente da Emater Paraíba, participou do encontro e foi entrevistado no programa Domingo Rural falando sobre os estudos, propostas e críticas apresentadas pelas entidades presentes naquele encontro que representa milhares de famílias espalhadas por todo o estado da Paraíba e disse que o processo de organização e novas construção se dar a partir do diálogo e disse reconhecer esses momentos de encontros, de exposição de pensamentos, dinâmicas e tomadas de decisões como espaço importante e que por parte da Emater Paraíba técnicos e direção vêm fazendo sua parte para fortalecer a agricultura familiar fortalecendo o processo de relação técnico/agricultor. “Então nesse primeiro ano de atuação a gente já percebe essa transformação, a nossa equipe bem mais atualizada, bem mais capacitada nesta interlocução, e nós chegamos ao consenso que precisamos também apoiar as iniciativas de intercâmbios de agricultor para agricultor e essa foi uma perspectiva que nós entendemos de começar construir agora pra 2012”, explica aquele presidente dialogando de forma direta com ouvintes e leitores de Stúdio Rural.

Secretário executivo da agricultura familiar, Alexandre Eduardo disse que o governo paraibano já vem agindo e sinalizando ações nesse sentido e diz que são ações que contemplam governo e sociedade através de suas organizações. “O governo do estado vive um momento ímpar nunca vivido antes neste estado de comunhão de busca de acertos em conjunto com a sociedade civil e eu falando no caso aqui da sociedade da agricultura familiar desse pessoal que tem construído experiências brilhantes enquanto oportunidade de geração de rendas, de trabalho e de riquezas no estado da Paraíba, tanto na geração da produção de alimentos quanto na produção de matérias primas e o estado junto com eles tem apresentado, por exemplo, nas chamadas públicas onde a Emater liderando recursos agora da ordem de R$ 10 milhões de reais para as comunidades rurais estarem investindo naquilo que os agricultores familiares já sabem fazer, aprimorando os conhecimentos, tanto os conhecimentos dos técnicos quanto os conhecimentos dos agricultores para ampliar ainda mais a oferta de alimentos no estado da Paraíba”, explica aquele secretário argumentando diversas outras ações tidas como fortalecedoras das relações entre governo e sociedade organizada e ao mesmo tempo da agricultura familiar estadual.

Maria Glória Batista é coordenadora do Patac, organização que trabalha assessoramento junto ao Coletivo Regional do Cariri, Seridó e Curimataú e disse que foi proporcionado intercâmbios onde as lideranças tiraram elementos para a conferência estadual de assistência técnica e extensão rural pensando numa política de assistência técnica com base na agroecologia e na convivência na com o semiárido dentre outras propostas. “A gente termina esse encontro onde a gente convida o secretário de estado da agricultura familiar e também o presidente da Emater onde a partir daquilo que discutimos, que refletimos e as políticas que aqui construímos apresentamos pra dois segmentos de governo do estado importantes pra agricultura, então a gente se sente com o dever cumprido onde a partir das experiências do que vem acontecendo em cada região se constrói proposta e dialoga com o puder público”.

Fonte : Stúdio Rural / Programa Domingo Rural

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos marcados como (obrigatório) devem ser preenchidos.

Newsletter

Através da nossa newsletter você ficar informado, o informativo do estudo rural já conta com mais de 20 mil inscritos, faça parte você também.

Back to Top