Mais um município paraibano se recusa receber sementes do governo paraibano

Distribuição da semente já no final do semestre 2013, variedades produzidas com uso de venenos e agroquímicos além de ser uma política que se distancia das políticas de produção agroecológica de alimentos, dentre outros motivos, fizeram o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável de Massaranduba colocasse em discussão o programa de sementes do governo paraibano e ao mesmo tempo discutisse o recebimento, ou não, das sementes proposto pelo governo como forma de beneficiar famílias agricultoras daquele município e ao final as representações decidiram por não receber as sementes como forma de fazer com que o governo retome as discussões de forma participativa para o processo de produção e distribuição de variedades no próximo ano.

O tema foi evidenciado no Programa Domingo Rural da Rádio Serrana de Araruna AM 590 kHz em conexão com a Rádio Bonsucesso de Pombal AM 1180 kHz quando entrevistou representações do Conselho Municipal Sustentável, agricultores componentes de associações de agricultores daquele município e representações do Sindicato dos Trabalhadores Rurais falando sobre os motivos de ter resistido em receber o produto já que a distribuição é feita de forma gratuita e sem nenhuma contrapartida das famílias agricultoras componentes do Programa Garantia Safra.

Entrevistada nos nossos programas e emissoras, a presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável, Maria Leônia Soares, Léia, explicou que a reunião foi de fundamental importância para discutir critérios do que seria um verdadeiro programa de sementes que venha gerar impacto positivo na vida da agricultura familiar e, com os debates ficou claro que a política de sementes não se difere das práticas dos diversos governos que passaram na gestão pública do executivo paraibano. “Semana passada tivemos uma reunião bastante importante aqui no município, a cada mês o conselho se reúne pra fazer todo o debate sobre a agricultura familiar do município, os desafios e aí estamos num momento bastante propício pra inclusive o debate sobre a semente, porque a cada ano entra gestão e sai gestão no estado e o entendimento em relação as sementes e a politicagem que é feita em cima dela é a mesma: a semente historicamente tem sido instrumento de investimento dos próprios políticos pra chegarem ao poder e não tem sido diferente. E esse ano o estado está aí fazendo uma grande distribuição com as sementes envenenadas da empresa Santana e estava chegando aqui no município e aí o conselho bastante atuante aqui no município onde tem um papel muito forte com as associações rurais, sindicato, igreja, poder público local decide por não receber essa semente”, explica aquela liderança ao iniciar seu diálogo amplo com o público ouvinte das nossas emissoras parceiras e garantindo que a política do governo demonstra forte contradição com a política nacional de extensão rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário que assegura que a produção seja limpa e sustentável e aqui no estado da Paraíba a semente chega com adição de produtos venenosos.

Stúdio Rural também dialogou com o coordenador dos Bancos de Sementes da Paixão de Massaranduba, Antônio Luiz da Silva, Dedé(foto) que explicou aos ouvintes as razões das representações em se negar receber o produto proporcionado pelo governo estadual. “Aqui fica uma lição que no ano passado já, uma lição para o governo que ele deve admitir comprar semente dos próprios agricultores, eu acho que é um debate que a gente sempre vem debatendo isso na comissão de sementes do Pólo da Borborema que deve pegar o governo pra comprar a semente dos agricultores porque as sementes dos agricultores a gente sabe que é uma semente crioula, nossa e que vem dos avós, não é você comparar uma semente que ninguém sabe nem de onde vem, eles manda essa semente e se essa semente não se der aqui?, o que é da vida do agricultor? É a pergunta que eu sendo agricultor faço mesmo ao governo”, desabafa aquela liderança.

Visitada e entrevistada por nossa equipe na comunidade Jacú, a agricultora Josefa das Neves Silva, Nete, desabafou dizendo que as entidades estão mesmo de parabéns por representar um anseio da agricultura organizada que já tem entendimento do que é uma agricultura de qualidade e sustentável feita pensando a saúdo do solo, de quem na terra produz, na saúde do consumidor e do meio ambiente e relatou que a decisão repercutiu de forma positiva nas diversas comunidades rurais do município que já vem vivendo práticas e saberes na agricultura de forma limpa. “Isso não é lógico, nem tudo que vem de graça é bom, então a gente tem que olhar esse lado, olhar o lado do agricultor, mas olhar o lado que a gente possa ter saúde, sabendo que se vai consumir esses alimentos com veneno só vai trazer problemas, lá na frente só vai prejudicar a saúde dos agricultores, como você mesmo sabe que o veneno mais cedo ou mais tarde, ele ficando no organismo, mais cedo ou mais tarde ele vai se movimentar, ele vai reagir dentro do organismo desses agricultores que consumirem essa semente. Então se é de graça é melhor não aceitar e prejudicar até o próprio solo que já vem se plantando sem veneno”.

Juvenal Ferreira do Couto, residente no sítio Gameleira é outro agricultor que recebeu nossa equipe em sua unidade rural produtiva para falar sobre o que representa a decisão das entidades em manter o município livre das sementes produzidas fora da dinâmica de sustentabilidade da agricultura familiar e garante que a decisão tomada neste quase final de semestre representa a condição para se discutir um plano de sementes do governo que acate a participação na concepção do programa que aquisição e distribuição das variedades apropriadas. “Bom, o que eu penso é isso: se a gente misturar essa semente que vem de fora, vai de água a baixo a semente da paixão que a gente guardou desde os tempos de nossos bisavós, então eu acho por bem que a gente mantenha guardando nossas sementes e preservando ela para que no futuro o nosso filho, os nossos netos continuem guardando a semente da paixão porque é dela que viu que é semente de firmeza, de garantia, que todo ano que a gente planta ela vem do mesmo jeito”, explica o agricultor acrescentando que é preciso ampliar a discussão sobre a valorização das culturas locais com envolvimento cada vez mais ampliada no número de agricultores nas discussões e práticas e aproveitou para sugerir que o governo se submeta a vontade da sociedade organizada. “Eu acho que a gente deveria fazer o seguinte: o governo poderia utilizar nossas semente, comprar aos produtores pra vender, pra repassar para os agricultores uma semente de boa qualidade”.

Ao voltar da zona rural daquele município, Stúdio Rural visitou a entidade sindical da agricultura familiar de Massaranduba e conversou com o secretário daquele sindicato, Gláucio Camilo da Silva, falando sobre a expectativa e do trabalho que aquela entidade vem fazendo junto as famílias para gerar equilíbrio no processo das contradições nas comunidades rurais e aquele diretor garante que o trabalho que vem sendo feito pelo sindicato já contagia a maioria das famílias agricultoras que repassam o resultado das decisões no sentido de fortalecer as decisões e o processo de discussão para a construção de um programa de sementes feito em sintonia com a vontade da sociedade civil organizada. “Pois é, nós tivemos a discussão na semana passada com presidentes das associações rurais e a postura dos presidentes das associações rurais foi a mesma do ano passado quando o governo veio com a mesma proposta de distribuição de sementes para o município de Massaranduba, e aí a gente aproveitou a reunião, fizemos um resgate da forma como o governo vem distribuindo essa semente, como é essa semente, semente que não condiz com a realidade dos agricultores do município de Massaranduba e aí, por unanimidade, mais uma vez os presidentes das associações resolveram não pegar essa semente”, relata aquele secretário afirmando que mesmo que a semente fosse de produção semelhante ao modelo dos agricultores, mas o tempo de distribuição já seria um fator que faria com que o segmento também se rebelasse contra o programa. “Se rebelaria da mesma forma, olhe só: a gente teve na discussão, mesmo esquecendo todos esses fatores, nós temos comunidades aqui de Massaranduba, por exemplo, que já plantou sua semente, então dentro desses fatores, mesmo que o governo viesse distribuir essa semente a essas alturas onde a gente sabe que inverno está irregular, então a gente está aproveitando as chuvas, então o que é que acontece? Muitas comunidades aqui do nosso município já plantaram a sua semente. Então ela chegando nessas alturas não adiantaria mais”, explica Camilo Silva.

Fonte: Stúdio Rural / Programa Domingo Rural

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