Comunidades e entidades fortalecem Cirandas dos Povos das Águas no Baixo São Francisco de Sergipe

Brincar é ancestral: Cirandas dos Povos das Águas fortalecem a consciência ambiental e a memória dos territórios tradicionais no Baixo São Francisco. Enquanto brincam, cantam, compartilham histórias e participam de atividades coletivas, crianças de comunidades quilombolas, indígenas, pesqueiras e extrativistas do Baixo São Francisco também aprendem sobre preservação ambiental, ancestralidade e pertencimento. Essa é a proposta das Cirandas dos Povos das Águas, uma das ações desenvolvidas pelo Projeto Povos das Águas nos municípios de Brejo Grande e Pacatuba, em Sergipe.

Voltadas para crianças de 6 a 11 anos, as cirandas promovem encontros mensais nas próprias comunidades, reunindo atividades lúdicas e pedagógicas que abordam temas como a importância do manguezal, a preservação ambiental, a valorização das populações tradicionais e a relação das novas gerações com seus territórios.

A iniciativa integra o Projeto Povos das Águas, realizado pela Associação dos Pequenos Agricultores do Estado de Sergipe (APAESE), com o apoio do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e em parceria com a Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental.

Atualmente, 180 crianças participam das atividades, distribuídas entre o Território Quilombola Brejão dos Negros, em Brejo Grande, comunidades extrativistas de Pacatuba e a Aldeia Fulkaxó, também em Pacatuba. Todos os participantes possuem autorização dos responsáveis para integrar as ações.

As atividades são conduzidas por cirandeiros e cirandeiras formados durante a Formação de Educadores Populares Ambientais (EPAs), que reuniu jovens dos dois municípios em um processo de preparação voltado para a educação popular e a realidade dos territórios tradicionais.

Ferramenta de formação e pertencimento
Para Lenilce Santos, coordenadora das cirandas e militante do MPA, o brincar é uma ferramenta capaz de fortalecer vínculos entre as crianças e os lugares onde vivem. “Quando a infância tem a oportunidade de construir uma formação crítica por meio do brincar, a história e a memória dos territórios passam a ocupar um lugar central e se transformam em projetos de futuro. Ao reconhecer o chão onde está inserida, fortalece-se o sentimento de pertencimento e o cuidado com os territórios, resguardando sua importância para o passado, o presente e o futuro. Eu acredito que para construir ou reconstruir territórios livres, sempre devemos iniciar pelas infâncias”, declarou.

Além das atividades nas comunidades, as experiências desenvolvidas no Baixo São Francisco também estiveram presentes no 4º Encontro Nacional do MPA, realizado em maio deste ano, em Brasília. As cirandeiras formadas pelo projeto participaram da programação e compartilharam suas vivências com educadores populares de diferentes estados do país. “O Encontro Nacional reuniu um pouco de tudo o que já vivenciamos nas cirandas até hoje. São muitos os elementos que contribuem para a formação não apenas das crianças, mas também de pessoas que, como eu, seguem aprendendo nesse processo coletivo. As crianças ensinam bastante e, nesse contexto de diversidade, o aprendizado se amplia ainda mais”, relatou Lenilce.

Aprendizado que transforma
Os encontros também provocam transformações entre os próprios educadores. Luciene Carvalho, cirandeira da comunidade Ponta de Areia, em Pacatuba, conta que a convivência com as crianças mudou sua percepção sobre a infância. “Minha visão mudou bastante. Pude perceber que as crianças, apesar da pouca idade, têm ideias incríveis, vontade de serem ouvidas e compreendidas. São muito observadoras e trazem reflexões importantes sobre aquilo que vivem no dia a dia”, afirmou.

Mais do que um espaço de recreação, as cirandas buscam fortalecer a cultura da coletividade, da partilha e da construção comunitária. A proposta dialoga com práticas historicamente presentes entre povos camponeses e comunidades tradicionais, onde o brincar também é uma forma de transmitir conhecimentos, fortalecer identidades e preservar memórias.

Para Elielma Barros, coordenadora pedagógica do projeto, esse processo é fundamental para aproximar as novas gerações de suas raízes e fortalecer o vínculo com os territórios.  “Para nós, a ciranda representa a cultura da coletividade, da partilha e do encontro. No círculo, todos podem se olhar nos olhos, é a forma tradicional das manifestações culturais, é trocar saberes, acolher e ser acolhidos. Historicamente, estar em círculo faz parte da resistência dos povos camponeses e das comunidades tradicionais, fortalecendo os laços com a cultura e o território. As cirandas são espaços lúdicos que fortalecem o sentimento de pertencimento e mantém vivo o elo entre a infância, a comunidade e a resistência”, destacou.

Em um contexto em que as novas gerações estão cada vez mais distantes das vivências comunitárias e dos saberes tradicionais, as cirandas se consolidam como espaços de encontro entre passado e futuro. Por meio das brincadeiras, das histórias e da convivência coletiva, as crianças constroem novas formas de se relacionar com seus territórios e ajudam a manter viva a memória das comunidades que habitam.

Fonte: Stúdio Rural / Programa Domingo Rural / Jornalista da APAESE – Marilia Souza

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